Será que há vantagem em ter um dialeto como idioma materno?
Já sentiu inibição ou constrangimento por ter algum sotaque,
porque em casa falam algum dialeto?
1 - Emigrantes dos vários “Estados” que vieram a integrar o Império Alemão a partir de 1871 levaram cada qual seu modo de falar, numa grande diversidade de dialetos, às várias regiões do mundo nas quais buscaram novas oportunidades. Alem destes, falantes de alemão de outros países.
Da mesma forma, ao Brasil. Aqui, viviam praticamente isolados. E os contatos entre os imigrantes das várias regiões de procedência ensejaram a formação de um novo dialeto com predominância do Hunsrickisch, que a maioria falava. Mais tarde, também foram incorporadas e adaptadas palavras do português, e cada vez mais.
A referência é ao surgimento do “Riograndenser Hunsrickisch” que abrange o maior grupo entre os falantes de dialetos alemães no Brasil.
2 - Sobre efeitos da convivência dos vários grupos de imigrantes, ainda que fossem todos de fala alemã, já foi comentado em “3 – Evolução de interações culturais” na postagem Alemães Gaúchos -2. Como efeito destes contatos e com base nesta nova maneira mesclada de falar e hábitos germânicos mantidos e outros adquiridos por força do meio em que agora viviam - e o fato da ausência de contatos mais significativos com o que viria a ser a Alemanha – surgiu uma nova identidade.
Criou-se uma identidade própria de “Deitsche” em solo brasileiro (distintos dos “Deutschländer” ou alemães vindos mais recentemente). Significativa considerando-se que de início, nem cidadania brasileira tinham.
3 – O grupo dos descendentes destes primeiros imigrantes cresceu geração após geração. E as famílias eram numerosas. À medida que passaram a faltar terras nas antigas colônias, passaram a migrar. Inclusive um considerável número para a Província de Misiones, na Argentina.
Já o linguajar próprio e seus usos e costumes, ao longo dos anos passaram a uma regressão em termos relativos. Isto à medida que muitos daqueles das novas gerações, migravam a outras ou novas colonizações com pluralidade de etnias. A língua em comum nestes casos passou a ser o português. E casamentos entre etnias diferentes, mais comuns. Some-se a isto a crescente urbanização e êxodo rural.
Alem destes fatores gradativos, houve grande impacto inibidor também com as duas guerras mundiais, especialmente a segunda. A política de nacionalização decretada em 1938 foi fortemente negativa.
Neste contexto, pela urbanização ou pela opressão, muitos casais mesmo ambos sendo descendentes de alemães, passaram a negligenciar o uso do dialeto no convívio familiar. Muitos foram influenciados por comentários depreciativos que taxavam o dialeto de algo atrasado.
O abandono do dialeto quando seria viável sua preservação, na realidade é uma perda, para indivíduos e a sociedade.
4 – Mas qual seria a vantagem para crianças cultivarem algum dialeto?
Interessante resposta está neste artigo da Deutsche Welle, (em portugues)
“Quem fala dialeto fala melhor”.
Destaco algumas conclusões de especialistas:
[...]O presidente da Associação Alemã de Filólogos, Heinz-Peter Meininger, justifica este fenômeno da seguinte maneira: "Os falantes de dialetos aprendem bem cedo a diferenciar diversos níveis lingüísticos. Isso treina a capacidade de apreensão e o pensamento abstrato."
Na visão de Josef Kraus, presidente da Associação Alemã de Professores, os falantes de dialetos tendem a ter melhor desempenho em língua alemã e matemática por causa de sua boa compreensão analítica. [...]
Pesquisas neurológicas recentes também revelam que o centro de competência lingüística no cérebro é mais desenvolvido em crianças que dominam diversas línguas. E o dialeto é um pressuposto ideal para qualquer criança desenvolver sua capacidade de articulação verbal.[...]
5 – Esta conciencia de valores em relação ao que para muitos parece ser algo arcaico,
em preservar dialetos, está levando a uma lenta revalorização.
Vários pequenos municípios – tais como São João do Oeste que já mencionei em outra oportunidade - nos quais há predominância de descendentes de alemães, estimulam a preservação do dialeto e outras tradições.
Isto facilita que em paralelo haja exito no ensino do alemão clássico e ingles, desde a tenra infancia.
Sem dúvida, uma vantagem no futuro destes brasileiros!
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domingo, 18 de setembro de 2011
sexta-feira, 9 de setembro de 2011
Alemães na América Latina (4/4)
( Início do tema, clique aqui)
Argentina, continuação.
Imigrações alemães no Alto Paraná
A Província de Misiones foi a que mais recebeu imigrantes alemães, com o maior número de colonias consolidadas.
Em 1919 foram implantadas as colonizações de Puerto Rico (católicos), Montecarlo (protestantes). Foram atraídos milhares de descendentes dos imigrantes alemães do Rio Grande do Sul. A estes teuto-brasileiros juntaram-se novos contingentes de alemães, com a criação também de Eldorado, e outras mais ao sul da Província.
Entre estas várias colonizações havia particularidades diferenciadoras. Assim, os teuto-brasileiros viviam socialmente separados dos demais alemães. A estes denominavam de “Deutschländer” em contraposição a si próprios de “Deitschen”. (“alemães” e algo como “alemons”, já no Brasil, e até hoje. É uma auto-referência dos descendentes das primeiras levas de imigrantes do período anterior à existência formal da Alemanha. A unificação alemã ocorreu em 1871. Em outro blog escrevi sobre processo da assimilação de alemães gaúchos).
Separados também viviam os Alemães do Volga, na baixa Misiones, assim como Alemães Suíços. Mesmo entre os alemães propriamente ditos, havia diferenciações, como denotam os toponímicos Bayerntal e Schwabental, na região de Eldorado.
No entanto, mais do que as mencionadas diferenças entre os vários grupos de imigrantes alemães, são marcantes as características em comum entre os vários grupos, em todos os países, tais como ênfase em valores da família, da educação, da solidariedade. Alem da valorização da música, desde a clássica à popular, danças folclóricas, confraternizações, corais, eventos culturais e esportivos, costuma haver as típicas bandas e bandinhas de música que costumam tocar marchas, valsas, polkas, animando bailes e festas - com algumas variações conforme as origens dos grupos, ou adaptações a costumes locais.
Paraguai
Apenas após a Guerra do Paraguai, acentuaram-se as imigrações, a partir de 1870.
De início em San Bernardino.
Muitos são teuto-brasileiros, complementados por alemães, como em Hohenau.
Destacam-se também as colonizações Menonitas como é Fernheim, na região do Chaco.
Dos imigrantes registrados de 1870 a 1959 - 8,4% foram alemães, 2,2% austríacos e 12,2% Menonitas (também de fala alemã) conforme consta nesta fonte (em alemão) pg.2 em tabela das várias nacionalidades dos imigrantes. Na pág.20 há tabela das colônias estabelecidas, indicando as nacionalidades dos respectivos colonizadores, e na pág. 22 aquelas de falantes do alemão.
Para ilustrar, vídeo da cidade Filadélfia, ou Fernheim, uma colonização Menonita na região do Chaco.
Uruguai
No Uruguai praticamente se reproduz a situação na Argentina, porem em escala muito menor.
Las tres colonias de alemanes en el país: Ombú, Gartental y Delta
Gartental, San Javier (colônias menonitas)
VII - Ilustração sobre tendências, um complemento.
De modo geral, nas colônias que eram isoladas e preservaram tradições, a exploração do turismo passou a ser fonte alternativa ou adicional de renda. Vimos isto nos casos de Tovar na Venezuela, e região de Pezuzo no Peru. Temos exemplos também no Brasil, como a Colônia Witmarsum. Veja os vídeos: Parte I, Parte II, Parte III.
O que ocorre nesta colônia é válido também para outros grupos eventualmente ainda fechados. Porem, esta abertura e agregação do turismo são diferentes dos casos de colonizações que desde logo foram estabelecidas ou evoluídas com diversidade étnica.
A promoção turística de Blumenau, por exemplo, embora tenha seu foco nas características alemãs, não se restringe a estes aspectos. Abrange várias peculiaridades em comum com todo o chamado Vale Europeu, em Santa Catarina.
-x-
Argentina, continuação.
Imigrações alemães no Alto Paraná
A Província de Misiones foi a que mais recebeu imigrantes alemães, com o maior número de colonias consolidadas.
Em 1919 foram implantadas as colonizações de Puerto Rico (católicos), Montecarlo (protestantes). Foram atraídos milhares de descendentes dos imigrantes alemães do Rio Grande do Sul. A estes teuto-brasileiros juntaram-se novos contingentes de alemães, com a criação também de Eldorado, e outras mais ao sul da Província.
Entre estas várias colonizações havia particularidades diferenciadoras. Assim, os teuto-brasileiros viviam socialmente separados dos demais alemães. A estes denominavam de “Deutschländer” em contraposição a si próprios de “Deitschen”. (“alemães” e algo como “alemons”, já no Brasil, e até hoje. É uma auto-referência dos descendentes das primeiras levas de imigrantes do período anterior à existência formal da Alemanha. A unificação alemã ocorreu em 1871. Em outro blog escrevi sobre processo da assimilação de alemães gaúchos).
Separados também viviam os Alemães do Volga, na baixa Misiones, assim como Alemães Suíços. Mesmo entre os alemães propriamente ditos, havia diferenciações, como denotam os toponímicos Bayerntal e Schwabental, na região de Eldorado.
No entanto, mais do que as mencionadas diferenças entre os vários grupos de imigrantes alemães, são marcantes as características em comum entre os vários grupos, em todos os países, tais como ênfase em valores da família, da educação, da solidariedade. Alem da valorização da música, desde a clássica à popular, danças folclóricas, confraternizações, corais, eventos culturais e esportivos, costuma haver as típicas bandas e bandinhas de música que costumam tocar marchas, valsas, polkas, animando bailes e festas - com algumas variações conforme as origens dos grupos, ou adaptações a costumes locais.
Paraguai
Apenas após a Guerra do Paraguai, acentuaram-se as imigrações, a partir de 1870.
De início em San Bernardino.
Muitos são teuto-brasileiros, complementados por alemães, como em Hohenau.
Destacam-se também as colonizações Menonitas como é Fernheim, na região do Chaco.
Dos imigrantes registrados de 1870 a 1959 - 8,4% foram alemães, 2,2% austríacos e 12,2% Menonitas (também de fala alemã) conforme consta nesta fonte (em alemão) pg.2 em tabela das várias nacionalidades dos imigrantes. Na pág.20 há tabela das colônias estabelecidas, indicando as nacionalidades dos respectivos colonizadores, e na pág. 22 aquelas de falantes do alemão.
Para ilustrar, vídeo da cidade Filadélfia, ou Fernheim, uma colonização Menonita na região do Chaco.
Uruguai
No Uruguai praticamente se reproduz a situação na Argentina, porem em escala muito menor.
Las tres colonias de alemanes en el país: Ombú, Gartental y Delta
Gartental, San Javier (colônias menonitas)
VII - Ilustração sobre tendências, um complemento.
De modo geral, nas colônias que eram isoladas e preservaram tradições, a exploração do turismo passou a ser fonte alternativa ou adicional de renda. Vimos isto nos casos de Tovar na Venezuela, e região de Pezuzo no Peru. Temos exemplos também no Brasil, como a Colônia Witmarsum. Veja os vídeos: Parte I, Parte II, Parte III.
O que ocorre nesta colônia é válido também para outros grupos eventualmente ainda fechados. Porem, esta abertura e agregação do turismo são diferentes dos casos de colonizações que desde logo foram estabelecidas ou evoluídas com diversidade étnica.
A promoção turística de Blumenau, por exemplo, embora tenha seu foco nas características alemãs, não se restringe a estes aspectos. Abrange várias peculiaridades em comum com todo o chamado Vale Europeu, em Santa Catarina.
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