sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Alemães Gauchos - 2

Complementando sobre interações culturais relativas aos descendentes de imigrantes alemães,
como visto em "Alemães Gauchos":

1 – Expressão bem marcante de teuto-gauchos é o grupo musical “3 Xirus”, que iniciou com músicas alemãs e aderiu ao gauchismo. Misturam música nativa com popular germânica.

Vídeos ilustrativos:

6 músicas em alemão (dialeto);

Em CTG, resgatando várias músicas em alemão (Blau ferber, Oh Susanna, Trinke noch ein Trepfchen);

Outra, Morgen;

Ao final deste vídeo – sobre Bruno Neher e suas músicas (inclusive em alemão) inspiradas em situações da vida dos descendentes de imigrantes alemães. Muitas em português com o sotaque destes. (Os Três Xirus ficaram famosos no Estado por misturar o sotaque germânico à tradicional música gaúcha.)

Muitos descendentes de alemães procuram preservar musicas e canções alemãs tradicionais, alem de haver versões em alemão de algumas músicas brasileiras, e gauchas, como pode ser observado neste vídeo. Interessante que vem todo legendado em alemão, inclusive uma música gaucha (~ no 53'). São mais de hora e meia de boas música.

2 – Na Argentina, até onde sabemos há entre descendentes de “Deitsche” vindos do Brasil, adaptações de música popular alemã. Veja aqui, “Die Marie und die Greth”. Há letras misturando espanhol e alemão, como neste exemplo, de “El Chaburay”.

Compare "El Chaburay" com “Alemão Malandro” em português, dos “3 Xirus”.

3 - Evolução de interações culturais.

Nas colonizações nas quais conviviam descendentes de alemães e imigrantes alemães recém chegados, de início apenas mesclavam culturas das várias origens destes. Apenas mais tarde surgiram efeitos de contatos com outras etnias.

3.1 – Entre os Deutschbrasilianer, ou teuto-brasileiros, temos os descendentes dos imigrantes vindos até 1871, que não tinham a nacionalidade alemã (porque a unificação sob o Império Alemão se deu a partir daquele ano), os Reischdeutsche vindos entre 1871 e 1945 (sob o critério da denominação oficial Deutsches Reich, que na forma original perdurou até novembro de 1918), e Bundesdeutsche, os imigrados mais recentemente. E ainda, os Wolgadeutsche, e os Donauschwaben, como principais grupos de alemães que chegaram ao Brasil de outros países aos quais já haviam migrado.

Já antes no Brasil, tal como depois na Argentina (conforme este artigo em alemão, e veja também o que escrevi sobre alemães na Argentina), aqueles do primeiro grupo de teuto-brasileiros, descendentes de imigrantes vindos antes de 1871 adotaram a para si próprios a denominação de “Deitsche” como forma de distinção em relação aos demais grupos, genericamente chamados de “Deutschländer”.

Estas denominações contrastam com as usuais pelas quais o específico é "Reichdeutsche" para os que tem cidadania alemã, e o genérico "Volksdeutsche" designando os demais, de etnia alemã.

Nas colonizações nas quais “Deutschländer” se assentaram em meio a “Deitsche” , ocorreu interessante intercambio cultural, e de conhecimentos práticos. Assim como os recém vindos traziam por vezes inovações, os já radicados há mais tempo ensinavam sobre manejo de culturas como, por exemplo, o cultivo de aipim.

Recordo de um comentário ouvido na minha infância (anos 50), quando morávamos na vila que hoje é a sede do município de São João do Oeste (SC). Comentário feito por um amigo de um tio meu (por casamento com minha tia), ambos alemães “Schwabe” vindos em torno de 1930. Após voltar de visita aos parentes na Alemanha, enfatizava que lá, na parte sanitária, ou “in die Latrine” se fazia tudo com “Wasserspülung”. Isto é, referia-se à descarga em vaso sanitário. Apenas realçava o contraste com as precárias privadas usuais no interior, naquela época. Não sei deste detalhe, mas certamente foi dos primeiros a instalar encanamentos de água, ainda que de fontes ou poço com bombeamento, e construção de fossas que permitissem a “Wasserspülung”. Serve para ilustrar que difundiam novidades tanto quanto impulsionavam atividades na comunidade, tais como a ginástica em aparelhos.

3.2 – A propósito deste episódio sobre latrinas ou privadas da época, tentei lembrar como o povo, que na maioria falava em dialeto, chamava aquelas casinhas um pouco mais afastadas das residências que tinham esta função.

É “Capunge” ou “Patent” na confirmação que tive da parte de Pio Rambo. Ele é um entusiasta e divulgador do dialeto “Hunsrickisch”, como pode ser visto em seu blog.

O editor do indicado blog, também é um exemplo de que muitos dos “Deitsche”, não aderem às tendências que comentei em “alemães gaúchos”. São preservacionistas e defendem a pluralidade cultural. Esta certamente é possível e interessante, e não necessariamente exclui as possíveis fusões com suas novas resultantes. Resultantes estas posicionadas mais como diversidades regionais do que étnicas, em relação a usos e costumes nas várias regiões do país – como é o caso do churrasco e chimarrão.

O fato é que hábitos não originários da Alemanha foram incorporados também entre falantes do “Hunrickisch”, como é o caso do consumo da erva mate. Por outro lado, ainda que prevaleça a opção pelo alemão clássico, entre os que estudam, pela óbvia vantagem em funcionalidade – é compreensível e válido persistir na fala de dialetos por razões emotivas, e eventualmente estudá-los em paralelo.

Ainda mais, na “aldeia global” cheia de “tribos”, do mundo atual.

A propósito, será que há vantagem em ter um dialeto como idioma materno?


Veja sob ítem 4 conclusões de cientistas que destaquei neste texto que elaborei.

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